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Onde foi que eu errei em 2025

Essa pergunta costuma emergir no fim do ano como um julgamento tardio. Ela se impõe como se houvesse, em algum ponto do percurso, uma escolha correta que não foi feita, um gesto que poderia ter evitado uma perda, uma frustração ou uma dor. Supõe-se, assim, que a vida responda a uma lógica de causalidade simples: se algo falhou, alguém falhou. Acabando no tão doloroso, EU Falhei!


A experiência, no entanto, ensina outra coisa.


Nem tudo o que não se realizou pode ser compreendido como erro. Há uma diferença fundamental entre falha e limite, entre responsabilidade subjetiva e culpa moral. A culpa supõe que o sujeito poderia ter agido de outro modo, como se estivesse inteiramente livre das determinações inconscientes, das amarras da história e das contingências do mundo. Essa suposição, além de irreal, costuma produzir apenas mais sofrimento.


Ao longo de 2025, muitas decisões talvez tenham sido tomadas a partir de um ponto possível, não ideal. O sujeito não escolhe a partir de um lugar neutro, mas a partir de sua estrutura, de seus impasses, de seus modos de defesa, de seus afetos e de sua própria falta. Em muitos momentos, o que se chamou de erro foi, na verdade, uma tentativa de manter algum equilíbrio psíquico, de sustentar um laço, de evitar um colapso maior.


A vida não se desenrola apenas no campo do que pode ser controlado. Há algo do real que insiste, que escapa à previsão, que interrompe projetos e desloca certezas. Atribuir a si toda a responsabilidade por esses encontros com o impossível é uma forma de recusar essa dimensão da experiência humana e de transformar o sofrimento em culpa.


Talvez a pergunta mais justa não seja “onde eu errei?”, mas “a partir de que lugar eu pude responder ao que me aconteceu?”. Em que medida certas escolhas foram atravessadas pelo medo da perda, pela angústia diante da falta, pelo desejo de reconhecimento ou pela necessidade de preservar algo que, naquele momento, parecia vital?


Aceitar os próprios limites não significa renunciar ao desejo, mas reconhecer que ele nunca se realiza sem restos, sem desencontros, sem perdas. Não há trajetória sem fraturas. Não há ano que se feche sem algo que falhou, que não foi dito, que não se sustentou. Não há nem haverá um ano perfeito. Jamais!


Talvez 2025 não demande uma confissão de culpa, mas um trabalho de elaboração. Um tempo de escuta da própria história, não buscando uma absolvição, mas buscando uma compreensão. Retirar-se do tribunal interno onde tudo é avaliado em termos de acerto ou erro pode abrir espaço para uma posição mais ética diante de si: aquela que reconhece o limite, sustenta a falta e, a partir disso, segue em frente.


Porque, muitas vezes, o que se chama de erro é apenas o ponto exato onde o sujeito encontrou o real e sobreviveu.


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