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CULPA


O sentimento de culpa está intimamente ligado a vida individual de cada um de nós e nosso convívio social. A culpa é necessária para o estabelecimento da organização social.

A condição humana é de dependência dos cuidados do outro devido à sua fragilidade constitucional. Desde o nascimento, sem nenhum cuidado, sem alguém que nos alimente, que nos proteja, que nos dê afeto, que tenha um olhar para nossa existência, estaríamos condenados à morte. Assim, o nascimento e sobrevivência de qualquer ser humano está relacionado a algo mais amplo, que inclui outro indivíduo, uma família, um grupo social. Pensando sob essa perspectiva, já começam os conflitos entre os desejos individuais e as necessidades coletivas para o bom convívio social.

Segundo Freud, “O sentimento de culpa é, claramente, apenas um medo da perda de amor, uma ansiedade social.”

Em “Totem e Tabu”, Freud já coloca a ideia de que a sociedade é fundada na culpa do assassinato do pai e na instauração de dois tabus associados. São eles a submissão à autoridade do pai e a proibição do incesto. Assim, a sociedade já nasce da interiorização da repressão. Existe aí, um dualismo pulsional e o conflito entre as pulsões sexuais e de autoconservação.

Freud entende que a agressividade é inerente ao ser humano. Assim, a inevitável manifestação do sentimento de culpa e do mal-estar em qualquer organização social, visto que não poderá manifestar seus mais íntimos instintos.

Apesar de acreditar-se que o sentimento de culpa é presente apenas nos seres humanos, outros animais podem manifestar culpa, mesmo que em outro nível ou forma. Já se verificou que coiotes, por exemplo, ao morderem outro coiote de forma muito forte em uma brincadeira, curvava-se reconhecendo o erro. Apesar desses animais não serem tão sofisticados emocionalmente quanto o ser humano, eles precisam saber o que é certo e errado, pois é a única maneira pela qual grupos sociais podem funcionar. O arrependimento é essencial, pois se um coiote fica com a fama de “trapaceiro”, ele é banido ou ignorado pelo grupo.

Então, quando existe o medo da perda do amor, há o sentimento de culpa.

O conceito de tabu se refere a tudo que pareça aos homens de alguma forma perigoso, misterioso, proibido, impuro, mas ao mesmo tempo sagrado. O que é tabu não deve ser tocado, deve ser mantido à distância, porém constantemente lembrado e temido. Freud sugere que estes “demônios” temidos que fundamentavam o tabu são apenas projeções dos próprios impulsos emocionais dos homens, pulsões presentes em todo homem que constituíam um perigo para a ordem social. Então, pode-se dizer que tabus são proibições que existiam com a finalidade de proteção, pois as restrições que o tabu provoca vão de encontro a desejos humanos antissociais, e, portanto, sua violação deveria ser punida.

Com a proibição surge a tentação. Assim, o tabu é paradoxal, pois ao mesmo tempo que proíbe, provoca a tentação. A ambivalência afetiva, a presença simultânea e conflitante de sentimentos opostos direcionados ao mesmo objeto, é característica da condição social humana.

O sentimento de culpa é derivado do conflito entre a necessidade de amor da uma autoridade e o impulso para a satisfação pulsional que está dentro de nós.

O sentimento de culpa é um mal-estar, é o preço que pagamos para vivermos em sociedade, reprimindo a sexualidade e a agressividade. E aí, voltamos naquela ideia de que o incesto e parricídio são instintivos. Há uma contradição entre as exigências humanas ligadas ao princípio do prazer, sejam elas da ordem da satisfação sexual e da agressividade (instintivos), e as restrições impostas pela civilização para que o convívio entre as pessoas seja, pelo menos, razoável. Dessa contradição emerge a culpa e, num ser culpado, o projeto de ser feliz está comprometido. Assim, o preço do desenvolvimento da civilização é alto. É o preço da perda da felicidade. Uma vez que se instala um mal-estar não identificado, mas sentido intensamente durante toda a vida a cada satisfação instintiva frustrada. Não é raro o indivíduo voltar contra si mesmo toda a sua energia destrutiva, tornando-se um masoquista. Ou dirigir essa mesma energia contra aqueles a quem ama, tornando-se um sádico.

Quanto mais se busca a felicidade, maior a culpa por não a encontrar. Ao perceber que essa felicidade é impossível de ser alcançada, o sujeito sente-se culpado pela dor que sente.

Assim, torna-se necessário criar certos tipos de leis para regular a convivência, muitas vezes em detrimento da liberdade individual. Afinal, não há leis que obriguem o homem a se alimentar, ou o proíba de colocar a mão no fogo, pois os castigos vêm da própria natureza, através da fome ou da queimadura. A tese de Freud é que os crimes proibidos pelas nossas leis são aqueles que muitos homens têm uma propensão natural a cometer. No geral, o canibalismo, o incesto, e a ânsia de matar seriam desejos fundamentalmente humanos, que ainda nascem com cada criança e seriam ainda operantes se não os repudiássemos conscientemente.

Então, segundo Freud, a existência necessária de leis que procurem sustentar a sociedade vai de encontro a pulsões humanas, que devem ser contidas em detrimento de sua urgência individual. Toda civilização conhecida se sustenta na necessidade de renúncia à pulsão. Todos nós temos que renunciar os mais íntimos desejos pulsionais para vivermos em sociedade e garantirmos nossa sobrevivência.

As renúncias necessárias ao convívio social provocam um “desenvolvimento”, ou um “progresso mental”, que consiste na internalização gradativa sob a forma de um superego. Eis a formação do Superego.

Ainda assim, Freud não deixa de admitir que a maioria das pessoas obedece a certas proibições culturais apenas na presença de coerção externa, apesar da internalização dos valores, como nas práticas tão comuns de mentira, fraude, calúnia, impulsos agressivos ou sexuais, desde que possam permanecer impunes. Ou seja, muitas vezes, apenas a punição externa é capaz de conter os impulsos internos.

O Superego representa as exigências da moralidade. No entanto, apesar da sensação de que esta consciência moral está dentro de nós, podemos afirmar que não foi sempre assim. A criança não possui restrições aos seus impulsos, e, sem inibições, não age de acordo com valores morais externos a ela. A função que mais tarde será exercida pelo superego deve ser desempenhada por uma autoridade externa – a figura dos pais, dos cuidadores. O cuidado dos pais é compreendido pela criança como expressão de amor, e os castigos ou repreensões a levam a sentir medo ou ansiedade, diante da possibilidade de perda daquele cuidado. Inicialmente, a perda do objeto cuidador e depois, perda do amor desse objeto.

Ao longo de seu desenvolvimento, o superego também assimila influências de autoridades externas que tomaram o lugar dos pais, como professores, educadores, religiões, estados e todos aqueles que lhe representam modelos ou ideais.

Voltando ao sentimento de culpa, sua origem deriva do fato de alguém saber ter feito um “mal”. No entanto, algo mau não precisa ter sido necessariamente feito, pois apenas a intenção do ato já provoca a culpa. Aqui, a intenção equivale ao ato. Em última instância, o que está em jogo é o medo da perda de amor daqueles que se ocupam de nós.

A culpa tem suas estratégias de acordo com a necessidade do sujeito de desculpabilizar-se. Como inocente ou como vítima, o sujeito, seja ele obsessivo, melancólico ou perverso, revela sua estratégia de minimização da culpa. O obsessivo, condenando-se pela intenção de pecar; o melancólico, por fazer recair sobre si a punição devida ao outro; e o perverso, por isentar-se de toda culpa.

A culpa denuncia o mal-estar do sujeito que vive a angústia de ser o que se é, onde essa seria a maior proibição.

A experiência do desejo é dramaticamente difícil.

É incrível como um processo analítico pode modificar as obrigatoriedades dos imperativos superegóicos da nossa sociedade. O conceito de felicidade é muito mais interessante, e tem muito mais a ver com desejo do que com qualquer outra coisa.





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